TV francesa, força moral

Catherine Millet acha que uma encoxada no metrô não é assédio sexual. Eu acho que é. Ela, como eu, anda de metrô, até mostrou seu cartão Navigo para provar que é uma parisiense das ruas num debate de TV 1seguido à carta que assinou. Também demonstrou o método Millet de reação a apalpadas (quando mais jovem; hoje, aos 69, está menos visada).
– Bastava que eu me virasse, envergonhasse o senhor publicamente e, no momento em que eu descia do metrô, já havia esquecido do assunto.
É o tal do “não acontecimento” que a carta citava. O parágrafo sobre o metrô, aliás, foi ideia dela. Talvez cinco horas de deslocamento diário elevassem a repetida mão boba ao status de acontecimento. Talvez não. Fato é que Catherine hoje se solidariza com os apalpadores franceses, reduzidos a uma sexualidade tão pobre. E estende, pelo exemplo, a própria postura a outras mulheres.
– Você reagiu desse jeito, você é uma mulher forte. E as outras? – indagou o apresentador.
Para responder, ela citou o caso de uma conhecida que superou o trauma de um abuso na infância e vive orgulhosa de si mesma e da sua vida sexual.
– Como intelectual, acho que meu papel é ajudar as mulheres a chegar a essa força moral.
Outra convidada perguntou, referindo-se ao #metoo e ao correspondente francês, #balancetonporc:
– Você não acha que o movimento ajuda nisso?
– Não. A única coisa que ouvimos por duas semanas foi vítima, vítima, vítima. As mulheres podem se defender hoje. Na época em que apalpar se tornou um delito, eu fui contra a lei.
São afirmações quase kamikazes no atual momento, em que o mote é “parem de nos responsabilizar por comportamentos masculinos”. Mas me intriga: por que uma mulher que viveu a abertura sexual dos anos 60 se impacienta com a geração atual? A carta pedia “novas respostas” além do papel de presa. Envergonhar um senhor no transporte público é uma das oferecidas por Catherine. Outra: relatar orgias e experiências sexuais num livro autobiográfico que vendeu 2,5 milhões de cópias no mundo inteiro, A Vida Sexual de Catherine M. Foi quando ela ficou sabendo de uma conversa de bastidores do mercado editorial, em que uma editora dizia que o bestseller seria impossível hoje, que Catherine topou escrever o manifesto.

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