Tradução da carta

No dia seguinte à carta das cem artistas e intelectuais francesas, muitas matérias citavam os trechos mais picantes. Não achei a versão em português em nenhum dos veículos que consultei e, por isso, fiz a minha tradução, que compartilhei no Facebook. O pessoal leu, e o Meio1 e a Gazeta do Povo levaram a versão pros seus leitores. É esta:

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O estupro é um crime. Mas o flerte insistente ou desajeitado não é um delito nem o galanteio uma agressão machista.

Na sequência do caso Weinstein, ocorreu uma legítima tomada de consciência das violências sexuais exercidas sobre as mulheres, especialmente no ambiente profissional, onde certos homens abusam de seu poder. Ela era necessária. Mas essa liberação da palavra se transforma hoje no seu contrário: nos intimam a falar como se deve, a calar o que incomoda e aquelas que recusam se dobrar a tais injunções são vistas como traidoras, cúmplices!

É próprio do puritanismo pegar emprestados, em nome de um pretendido bem geral, os argumentos da proteção das mulheres e de sua emancipação para melhor as enquadrar num status de eternas vítimas, de pobres coisinhas sob a influência de demônios falocratas, como nos bons tempos da feitiçaria.

De fato, o #metoo provocou na imprensa e nas redes sociais uma campanha de delação e de acusações públicas de indivíduos que, sem possibilidade de responder nem se defender, foram colocados exatamente no mesmo plano que os agressores sexuais. Essa justiça acelerada já tem suas vítimas, homens sancionados no exercício de suas profissões, forçados à demissão, etc, enquanto não tiveram como erro mais que o fato de terem tocado um joelho, tentado um beijo roubado, falado de coisas “íntimas” em um jantar profissional ou terem enviado mensagens de conotação sexual a uma mulher que não correspondia a atração.

Essa febre de enviar os “porcos” ao abatedouro, longe de ajudar as mulheres a se tornarem autônomas, serve na realidade aos interesses dos inimigos da liberdade sexual, dos extremistas religiosos, dos piores reacionários e daqueles que julgam, em nome de uma concepção elevada do bem e da moral vitoriana que a acompanha, que as mulheres são seres “à parte”, crianças com rostos de adulto, pedindo para serem protegidas.

Frente a isso, os homens são convocados a fazer um mea culpa e desenterrar no mais fundo de sua consciência retrospectiva um “comportamento deslocado” que eles podem ter tido dez, vinte ou trinta anos antes e do qual deveriam se arrepender. A confissão pública, a incursão de procuradores autoproclamados na esfera privada, aí está o que instala um clima de sociedade totalitária.

A onda purificadora não parece conhecer nenhum limite. Lá, censuram um nu de Egon Schiele num pôster; aqui, se pede a retirada de um quadro de Balthus de um museu sob alegação de que seria uma apologia à pedofilia; na confusão do homem e da obra, pedem a proibição da retrospectiva de Roman Polanski na Cinemateca e obtêm o adiamento da consagrada a Jean-Claude Brisseau. Uma universitária julga o filme Blow Up de Michelangelo Antonioni “misógino” e “inaceitável”.

À luz desse revisionismo, John Ford (Rastros de Ódio) e mesmo Nicolas Poussin (O Rapto das Sabinas) não estão seguros. Os editores já pedem a alguns de nós que tornemos nossos personagens masculinos menos “sexistas”, que falemos de sexualidade e amor com mais moderação ou então que façamos com que os “traumas sofridos pelas personagens femininas” sejam mais evidentes!

No limite do ridículo, um projeto de lei na Suécia quer impor um consentimento explicitamente notificado a todo candidato a uma relação sexual! Mais um pouco e dois adultos que tenham vontade de fazer sexo deverão antes marcar num aplicativo de celular um documento no qual as práticas que eles aceitam e as que recusam serão devidamente listadas.

Ruwen Ogien defendia uma liberdade de ofender indispensável à criação artística. Da mesma maneira, nós defendemos uma liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual. Somos hoje suficientemente informadas para admitir que a pulsão sexual é por natureza ofensiva e selvagem, mas somos também suficientemente inteligentes para não confundir flerte desajeitado e agressão sexual.

Em especial, somos conscientes de que a pessoa humana não é monolítica: uma mulher pode, ao longo do mesmo dia, dirigir uma equipe profissional e gozar por ser o objeto sexual de um homem, sem ser uma “vagabunda” nem uma vil cúmplice do patriarcado. Ela pode se assegurar para que seu salário seja igual ao de um homem mas não se sentir traumatizada para sempre por uma encoxada no metrô, mesmo se isso é considerado um delito. Ela pode, inclusive, o ver como a expressão de uma grande miséria sexual ou como um não-acontecimento.

Enquanto mulheres, não nos reconhecemos nesse feminismo que, além da denúncia dos abusos de poder, encarna uma raiva dos homens e da sexualidade. Pensamos que a liberdade de dizer não a uma proposta sexual não existe sem a liberdade de importunar. E consideramos que é preciso saber responder a essa liberdade de outro modo que não se fechando no papel da presa.

Para aquelas entre nós que escolheram ser mães, estimamos que é mais sábio criar nossas filhas de forma que elas sejam suficientemente informadas e conscientes para poder viver plenamente suas vidas sem se deixar intimidar ou culpabilizar. Os acidentes que podem tocar o corpo de uma mulher não atingem sua dignidade e não devem, por mais duros que às vezes sejam, necessariamente fazer dela uma vítima perpétua. Pois não somos reduzidas ao nosso corpo. Nossa liberdade interior é inviolável. E essa liberdade que nós prezamos não existe sem riscos nem sem responsabilidades.

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