O Sol já foi mais simples

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[Foto: Artur Pilipchuck]
Melanoma, Gisele Bündchen 1 e ansiedade na busca de uma postura ultravioleta digna

Faz dois anos que frequento as reuniões de meu condomínio e confirmo ser possível levar três horas para decidir o que uma família define em um minuto. O caos se acotovela nos sofás de dois lugares e uma vizinha propõe câmeras, a outra reclama da sujeira e o conselheiro finge manter a pauta, mas fala mesmo é do horário de silêncio. Às 21h, alguém lembra que precisamos votar — o telhado prestes a desabar segue sem solução. É confuso e cheio de vozes, igualzinho à minha cabeça tentando escolher como encarar o Sol em 2017.

Tem o risco de desabamento, ou de câncer de pele, que pede urgência. O Brasil contou 181 mil novos casos em 2016 e segue a tendência mundial de números crescentes para a categoria. A maioria das lesões não é letal, mas os melanomas, que somaram 5,6 mil no país último ano, sim, têm grande poder de metástase. Eles se espalham facilmente pelo corpo e matam rápido. Por isso, apesar de minoria, são dignos de medo.

PRIMEIRA CHAMADA

Nesse cenário, algo importante para começar é um belo exame. O médico percorre o corpo do paciente com uma lupa e indica a retirada de lesões suspeitas — eu mesma já perdi oito pintas assim. Os primeiros convocados são ruivos, loiros, pessoas de olhos e ou pele clara, sardentos e donos de muitas pintas e ou lembranças ardidas de verão. O grupo de risco é o mesmo de sempre, mas a checagem é hoje aconselhada a todas as peles e pode ser feita por qualquer dermato. Uma vez por ano, é possível matar a charada gratuitamente no mutirão voluntário da Sociedade Brasileira de Dermatologia promovido em todo o país. Como o deste verão já passou, o próximo dever ser só em novembro ou dezembro de 2017.2

A segunda é bem mais difícil e consiste em manter um dia a dia saudável fora do bunker. Sol é vida, serotonina e vitamina D 3, mas o consenso sobre a quantidade ideal segue sendo uma utopia bem suada. Segundo a dermatologista Taciana Dal’Forno, uma das porta-vozes da Sociedade Brasileira de Dermatologia, o bronzeado ideal para pessoas brancas (com pouca melanina) segue o roteiro: no primeiro dia, filtro FPS 100. Volta-se para casa do mesmo jeito que se saiu. No segundo dia, idem, já podendo— ou tentando — ver uma levíssima coloração. Só depois de duas semanas na praia, essa pessoa bem branca pode diminuir o FPS para 60. Se nesse tempo pegar uma corzinha sem voltar vermelho nenhum dia, está ótimo. “O importante é não se queimar”, ensina Taciana. Sensato, equilibrado e diferente de tudo o que já vi as brasileiras fazerem.

Em nossa defesa, digo que o afundamento das leis trabalhistas e o alto preço das diárias dificultam férias além do FPS 100. Como mea culpa, precisamos falar de ansiedade. E vontade de “resultado” entre sexta e segunda-feira. O problema é que uma pele que vai dormir num tom bem diferente do da manhã está machucada. No leque de lesões, a vermelhidão é um tipo leve de queimadura, a ardência que depois vai descascar é uma de primeiro grau e bolhas e estado febril, de segundo. Voltando ao tópico principal, a repetição delas aumenta o risco de câncer cutâneo 4.

CONTEMPORIZANDO

Entre as brasileiras existe uma minoria que obedece aos horários de sombra.5 E é disciplinada no protetor solar. Ainda assim, não é o suficiente. A quantidade que aplicamos de loção é em média a metade da usada nos testes que catalogam os produtos 6. Se não ficou branca-pomada, como ensina esta australiana 7 que cresceu cantando cantigas de FPS, não está levando o que comprou. Para piorar, às vezes nem assim. A Proteste – Associação Brasileira de Defesa do Consumidor já fez diversos testes com rótulos do mercado nacional e deu notas ruins para marcas líderes por não terem o FPS indicado na embalagem.

Quem dera essa advertência encerrasse a assembleia. Mas não. No último minuto chega uma voz para informar que muitas marcas de FPS têm ingredientes francamente tóxicos. Alguns já banidos na União Europeia e presentes nas prateleiras daqui 8, outros capazes de interferir nos nossos hormônios. E o problema da alteração endócrina provocada por produtos químicos, alerta a Organização Mundial da Saúde (OMS) 9, é o potencial de provocar de câncer de mama e próstata, entre outras doenças. Agora complicou.

Beba um pouco d’água e veja esta galeria de pais besuntando suas crianças 10 enquanto chamo o especialista.

DEDOS EM RISTE

O médico inglês radicado nos Estados Unidos Samuel S. Epstein* já publicou 12 livros e centenas de artigos científicos sobre prevenção e causas evitáveis de câncer. Seus estudos focam aditivos alimentares, pesticidas e conflitos de interesses nas políticas do governo. Em 2009, ele publicou Toxic Beauty 11 (Beleza tóxica, sem edição no Brasil), sobre os ingredientes mais perigosos e inúteis da indústria cosmética. Só no mercado solar, eis os riscos que o livro aponta:

Disruptores hormonais — Alguns químicos similares ao estrogênio confundem o corpo e a alteram sua mecânica hormonal. O mais comum identificado nos produtos solares é a oxibenzona, que se deposita no organismo. A substância estava presente no sangue de 97% dos participantes de um estudo feito pelo Centro de Controle de Doenças dos EUA em 2005. Epstein também cita evidências de que mulheres com acúmulo de oxibenzona são mais propensas a dar à luz filhas abaixo do peso. Outros disruptores hormonais muito usados nas loções são o Bp-3 e o OMC, também já detectados em urina e leite materno. Tudo isso, claro, sem contar os danos ambientais. 12

Nanopartículas — São migalhas químicas encolhidas a até 100 nanômetros de largura, ou 100 mil vezes mais finas que uma folha de papel. O tamanho ínfimo permite que penetrem na pele de forma rápida e profunda como jamais se viu. No nicho solar seu uso mais comum é no dióxido de titânio e no óxido de zinco, ajudando a minimizar a aparência esbranquiçada que eles deixam sobre a pele. O nanoformato torna perigosas — estudos as relacionam a danos no cérebro, pele, ossos e fígado — essas duas substâncias que, de outra forma, são seguras, diz Epstein. Você pode procurar por nanopartículas nos rótulos (ainda que nem todas as marcas indiquem) sob nome de “ultrafinas” e “microfinas”.

VOTOS e ABSTENÇÕES

Como alternativas seguras, Epstein cita os mesmos óxido de zinco e dióxido de titânio, mas no seu formato não reduzido a nanopartículas. A médica Taciana também cita o zinco como ingrediente seguro desde que fora do universo nanotecnológico, e menciona um relatório da Agência de Saúde Francesa alertando justamente sobre os riscos dessas substâncias 13. A tendência para o futuro, aponta ela, são fórmulas mais simples. Existem também os suplementos de plantas 14, que podem ser encontrados no Brasil e são indicados em associação ao FPS, além de, é claro, roupas.

O fim desta reunião é bastante intranquilo. A orientação médica brigou com a praticidade, que ignorou as regras de convívio e conversou com a vaidade num cantinho. É impossível tiranizar um critério sobre o outro e, ao mesmo tempo, o verão segue ardendo lá fora. Pedindo uma decisão.

Qual é a sua?

[Foto: Artur Pilipchuck]
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