Arruda para a Margaret

Chamar a Margaret Atwood de traidora só pode ser inveja da lucidez. Era uma piada, eu ri. Aqui no Brasil de fato explicamos 80% dos conflitos a partir do sentimento – 99% se tiver mulher no meio. Pois bem. Margaret assinou uma carta em 2016 contra o modo como uma universidade canadense tratou um professor acusado de assédio sexual. O caso virou midiático, o homem foi inocentado pelo juiz e demitido pela faculdade. Por causa de um acordo de confidencialidade, o assunto era público, mas não tinha detalhes.
Margaret considera o processo errado. O professor estava sendo culpado por ser acusado, e isso não é como as coisas devem ocorrer numa sociedade de direito. Comparou o caso1 aos tribunais de Salem e às fases de “terror e virtude” da história. “Algo deu errado e é preciso uma purga, como na Revolução Francesa, nas purgas de Stalin na URSS, a Guarda Vermelha na China, o reinado dos generais na Argentina e os primeiros dias da Revolução Iraniana.” Momentos em que a presunção de inocência foi considerada um luxo.
Ao que ela pergunta: vai fazer o quê com o sistema legal falhado do qual o #metoo é um sintoma? Ninguém assume querer “tacar La Terreur”, mas é a ideia que transparece em várias respostas. “Alguns homens vão se ferrar para que a mentalidade de todos mude.” Discordo, mas acho que essa posição deveria ser defendida com mais clareza.

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