A Mulher-Maravilha, os seios de Gal Gadot e as amazonas de verdade

“Num passado distante, as mulheres reinavam e tudo ia bem”

A Mulher-Maravilha é esperada desde 2014, quando a Warner Bros. anunciou três filmes com a personagem e apresentou a atriz israelense Gal Gadot como a escolhida para vivê-la. Ela primeiro estreou em Batman vs Superman e, agora, chega finalmente com seu próprio filme. Até hoje, estúdio e críticos se perguntam: Diana Prince pode levar multidões ao cinema? Neste fim de semana, o primeiro depois da estreia mundial, a Warner Bros. terá sua resposta1

Mas essa não é a única questão sobre o esperado longa. Desde que viram Gadot, os fãs reclamam do tamanho do seus seios. Não são grandes o suficientes, dizem. O assunto foi pauta já na primeira rodada de entrevistas após o anúncio. A resposta da ex-Miss Israel viralizou: “A Mulher-Maravilha é uma amazona, e amazonas historicamente acuradas apenas têm um seio. Então, se eu fosse ser literal… seria um problema”.

Li sobre isso a primeira vez no texto da historiadora Jill Lepore escreveu para a New Yorker2. O livro que ela escreveu sobre a história da Mulher-Maravilha3 chega neste mês às livrarias brasileiras e conta em detalhes como o psicólogo William Moulton Marston foi influenciado pelo caldeirão de ideias feministas do início do século 20 para criar a heroína. Na época, as sufragistas americanas e as mulheres que criariam o Planned Parenthood, o sistema de planejamento familiar e aborto seguro americano, evocavam a figura das amazonas como imagens de força.

Marston, um feminista, fez o mesmo. Em 1941, na estreia da Mulher-Maravilha, ele conta a história de como, em Amazona, as mulheres governavam e tudo corria bem. Depois, foram feitas escravas pelos homens, mas um pequeno grupo, o das amazonas, conseguiu escapar e se isolar numa ilha. Até que, num belo dia, um capitão americano cai com seu avião ali. Essa é a trama em cartaz. “Honestamente, a Mulher-Maravilha é propaganda psicológica para o novo tipo de mulher que deveria, eu acredito, governar o mundo”, diz ele numa citação de Lepore.

Mas, ainda que a Era de Ouro anterior ao patriarcado tenha soado real às primeiras feministas e o corte do seio tenha servido como uma excelente resposta para Gadot, historicamente a verdade sobre as amazonas parece diferente. Numa entrevista à BBC4 sobre seu livro The Amazons (sem edição em português), a pesquisadora Adrienne Mayor conta o que sabe.

Número 1: as amazonas existiram de verdade, não eram apenas mitos gregos como os ciclopes ou o minotauro. Mas, ao invés de dominar o mundo ou viver isoladas, estavam entre as inúmeras tribos nômades à leste da Grécia. Eram de fato mulheres guerreiras e sua existência foi comprovada pela arqueologia. Há sepulturas de mulheres com armas idênticas às desenhadas em vasos gregos. E muitos desses corpos eram marcados por ferimentos de lutas.

Número 2: os gregos eram muito fãs das amazonas. Elas aparecem em mais de 1 mil representações artísticas e eram figuras que as mulheres gregas gostavam, diz Mayor. “Há bonecas de argila com braços articulados e roupinhas diferentes encontradas em covas de meninas. Como pequenas Barbies”, diz ela na entrevista. “A ideia de que as amazonas eram contra-exemplos para as gregas, de que elas eram figuras que mostravam como uma mulher não deveria ser apenas não se sustenta.”

Número 3: elas tinham os dois seios. “Não há uma única representação antiga que mostre uma amazona com o seio cortado”, diz Mayor. A teoria do arco-e-flecha, ela explica, foi criada por um antigo historiador que viu um significado etimológico na palavra grega: “a” (sem) “mazon” (seio). Tudo mito, garante a autora. “Qualquer mulher que já usou um arco-e-flecha pode atestar.”

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