Por que só uso óleos — a vida depois da fobia de oleosidade

[foto: Rafael Praia/CC]
Uma revisão íntima de vilões incompreendidos

Nenhuma chamada de beleza quicou mais rápido no meu cérebro do que “pele oleosa”. Por anos, foi isso. A expressão aparecia num cantinho de texto e era o suficiente para o mouse travar na minha mão. Só relaxava quando ela ia embora e o assunto migrava para outras peles. A velocidade da resposta era digna de academia militar: atenção imediata, irrestrita, inconteste. Podia ser o programa matinal mais descreditado, com as informações mais repetidas. Se “pele oleosa” soasse, o resto da lanchonete desaparecia. Só ficava a TV. É doido pensar nisso porque, hoje, a única coisa que passo na pele é óleo.

Como isso aconteceu? Não sei, juro. É um desses fenômenos que te fazem querer ser antropólogo de si mesmo. De uns anos para cá, todos os cosméticos vêm passando por uma sabatina no meu banheiro: por que te comprei? Onde você me convenceu? Você funciona mesmo? Não planejei isso, apenas caí interessada nessa etnografia íntima. No meu diário de campo, a folha atual diz: esta mulher só usa óleo nas suas rotinas de beleza.

Veja a ironia: frequentei dermatologistas para combater a oleosidade desde os 12 anos. Por quase duas décadas, saí de dezenas de consultórios munida de sabonete desinfetante e creme secante. A promessa dos produtos se sustentava por uma semana, o prazo da minha disciplina. Depois disso, eu largava os cremes na gaveta e, lá de dentro, eles eram incapazes de agir. A frustração se renovava.

Até que, adulta e destemida, apertei a mão de um médico como quem faz um ótimo negócio: vamos começar logo com esse tal Roacutan. Por nove meses, nenhuma gota de óleo visitou minha pele. A boca craquelou, o fígado pediu atenção e um dia assustei minha mãe dizendo que me via um pouco amarelada (foi o pior comentário na pior hora porque, na época, ela lidava com o meu avô morrendo de verdade. Desculpa, mãe). O tratamento acabou e recusei a dose vitalícia “de controle” que me livraria do óleo para sempre e, bônus futuro, das rugas1. A pele oleosa voltou.

Não só isso como, de repente, não estava mais sozinha. Meu cabelo entrou para a mesma categoria e por ele comprei xampus de R$ 60 (era bastante dinheiro em 2014), conheci os que agem a seco e calculei a viabilidade disso tudo a longo prazo. Deu “não”. Aí, decidi testar algo que não tinha testado ainda2 e, quando percebi, a grande revisão historiográfica das rotinas cosméticas havia começado. Os frascos foram estacionando nas gavetas.

DE REPENTE

Um dia, saí de casa para fazer uma massagem nova. Durou duas horas e meia e, no final, percebi que havia óleo em todos os centímetros do meu corpo. Com especiarias. As roupas grudaram quando fui embora. Tentei calcular se o cheiro de acampamento hippie incomodava os colegas do ônibus, mas desisti. Estava numa nuvem de bem-estar e incapaz de observar qualquer coisa com olhos de fora. O torpor me intrigou e acabei voltando. Ao longo dos meses, as sessões mudaram, com carinho, muitas coisas que não iam bem comigo. Comecei a estudar o que era aquilo3.

Quando o verão chegou e a proteção solar passou pela sabatina, fiz experiências com óleo de cenoura. Também misturei óleo de coco e pasta d’água (porque ela tem dióxido de titânio, um bloqueador solar) e saí meio esbranquiçada pelo litoral do Uruguai4. Concluí que é mais confortável ter uma camiseta UV e uns chapéus bonitos. Mas, ei, eu tinha aplicado óleo na pele. Por querer.

ÓLEO AMIGO

Hoje no meu banheiro tem um galão de óleo de gergelim. Esquento um pouquinho de manhã e passo por tudo. Dura uns 15 minutos e termina no banho. Comparo com as rotinas de hidratação que já me propuseram e me sinto num lucro tremendo, até porque só faço uma ou duas vezes por semana. Era tudo o que queria, de novo: simplicidade5. Depois que a barreira caiu, nada mais foi poupado: rosto, couro cabeludo, cabelos. Tanto que aceitei, muito recentemente, o milagre nacional do óleo de coco.

Eu ignorava que os óleos nutriam? Não. Sabia que os vegetais penetram na pele enquanto os minerais só fazem uma camada protetora que eventualmente a entope. Mas fugia deles como a Gabriela foge dos carboidratos porque, como ela, estava convencida de que eram o Anticristo. Uma vez, numa revista gringa, a dona de um spa resumiu seu segredo de beleza: óleo quentinho no corpo todo e bom dia. Achei gauche. Não entendi como ela podia confessar isso e ao mesmo tempo sorrir na foto.

Ei-me aqui fazendo igual. Quando termina uma oleação (o nome precisa de marketing, fato), meu rosto fica corado. É uma cor puxando para o amendoado, como a que as mulheres da minha família tinham nos anos 1980, antes da Grande Guerra contra a Melanina. E me sinto bem6.

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[Foto: Rafael Praia/CC]