Meu cabelo, minha vida: um livro só de biografias capilares

Uma coletânea que podia ser escrita por todas nós e nunca, nunca terminar

Pergunte a uma mulher sobre seu cabelo e ela talvez ela conte a história da sua vida. Assim começa o livro Me, my Hair and I, da americana Elizabeth Benedict,1 que fez exatamente isso, pediu a 27 mulheres que contassem algo significativo sobre suas madeixas. Ao longo de 300 páginas, escritoras, jornalistas e ativistas contam histórias que vão da infância aos cabelos brancos. Uma vez na intimidade capilar delas, é impossível ficar indiferente.

Torci pela filósofa Rebecca Goldstein — criada numa família judia ortodoxa — enquanto ela narrava seu complexo de Rapunzel. A mãe, cansada de cuidar de tantos filhos, manteve as cabeleiras das duas meninas menores curtíssimas, raspando a nuca com o aparador de barba do marido. Não houve súplica que liberasse os fios da criança rumo aos ombros, sobretudo por serem grossos e de um “loiro sujo” — que a pobre Rebecca tentou lavar obsessivamente com sabão.2 

Outra autora, a novelista Marita Golden, lembra quando decidiu assumir o afro nos anos 1960 e toda a família temeu por ela, o pai ameaçando cortar seu sustento. “Eu tinha 18 anos e havia entrado na universidade cinco meses após a morte do Dr. Martin Luther King Jr. O mundo era um lugar de revolta, raiva e questionamentos sobre por que os negros tinham tão pouco poder, por que estávamos no Vietnã e por que os negros precisavam se parecer com os brancos para serem considerados bonitos.” Era uma posição política, como é a de muitas jovens negras hoje, mas também um reencontro. “A primeira vez em que gostei do meu rosto ou do meu cabelo foi quando olhei no espelho no dia em que o deixei natural.”3

Escrevendo do Brooklyn, Siri Hustvedt faz um ensaio sobre o que os cabelos significam na nossa sociedade, entre mães e filhos e entre crianças de escola. Ela lembra dos cuidados que teve com a filha, a cantora Sophie Auster (filha do também escritor Paul Auster): “Gostava especificamente do ritual das tranças, da visão da orelha da minha filha e a parte de trás do seu pescoço, gostava da sensação e do cheiro do seu cabelo castanho brilhoso, gostava do dobrar por cima e por baixo as três meadas de cabelo que tinha entre meus dedos.”4

Quantas lembranças as lembranças dos outros nos trazem.

O CALMA também está no Facebook.

More from Letícia González Read More