Hierarquia real e presumida

Discordo sobre o #metoo seja um desserviço, mas desde que o affair Weinstein começou leio “sexual misconduct” com apreensão. Não acho que é o momento de sermos genéricos. Se você vai expor um cara a consequências reais – que, nos EUA, se traduz por prejuízo financeiro, ainda que uma carreira seja muito mais do que isso –, não pode ser evasivo. Eu quero saber o que ele fez. Se estou sendo chamada a um julgamento popular, como estou, preciso saber dos detalhes. Porque são eles que vão fazer a diferença no meu entendimento pessoal, que pode ser público ou não, entre um Harvey Weinstein, um James Franco e, principalmente, um Aziz Ansari 1.

Um exercício que acho válido para o momento está na lista que o NY Times alimenta2 desde o início da avalanche. Ler acusação, consequência, resposta. Tirar daí uma opinião. Caso a caso. O tema é importante demais para ser delegado a um discurso de alguém ou grupo admirável. Continuo achando a exposição válida, elas nos obriga a debater as relações que mantemos todos os dias (fácil para mim dizer, a exposição é hoje perigosa para os homens).

Para mim, assédio sexual no trabalho envolve hierarquia, toque físico e insistência. As três juntas, a primeira sozinha ou o conjunto das duas últimas. São elas que forçam a mulher a se calar como estratégia de manter o emprego, condicionam a carreira, invadem e perturbam o desempenho.

Fora dele, vejo uma expectativa aumentada de violência ocupar o lugar que, na corporação, é da hierarquia. Um homem se aproxima num lugar público e povoado, faz uma abordagem torta, isso é visto como violência. Potencialmente, porque deu provas de desrespeito e porque é mais forte fisicamente, esse cara pode atacar. Pode. Ver na hipótese uma realidade que apenas aguarda para ocorrer é problemático porque, justamente, ela não ocorreu (fácil para mim dizer, nunca fui senti medo).

O consenso caminha para igualar coisas que não são iguais, a meu ver. Que um homem despeje sua raiva verborrágica – e misógina, machista, fruto de mais uma miséria sexual, para citar a Catherine, ainda que nenhuma justifique seus atos – contra a dona de uma bunda à mostra no Carnaval porque ela não o autoriza a tocá-la venha do mesmo universo que um estupro não faz das duas coisas sinônimos. Vejo nisso uma injustiça com as vítimas de violência sexual. Na amplidão do patriarcado, elementos muito diferentes coexistem e confundi-las não me representa.

Acho que os veículos fizeram seu papel de fóruns sobre o que é assédio e o que é cantada. Muita gente falou e, mais uma vez, me vejo numa fala da Maria Rita Khel3 que diz que o exato limite talvez seja impossível de definir. Tentemos mesmo assim, porque o exercício é válido e o que está em construção nos afeta diretamente.

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