Um salão sem progressiva? Que Milagros!

Milly em seu salão paulistano, o Berlin Hair [Foto: LG]

 

Uma conversa com a cabeleireira Milagros Olmos, a Milly, sobre cachos entre Brasil e Argentina

Ela nasceu num país onde mulher bonita tem que de ser magra e de feições europeias. E fincou pés em outro… não muito diferente. Dona do próprio salão em São Paulo 1, a argentina Milagros Olmos (a Milly) tem umas quantas observações sobre os países hermanos. Especialmente sobre cabelos de lá e cá. “Aqui tem essa coisa de ‘cara de arrumado’,  tem de parecer penteado, se não, não te valorizam”, diz ela. O sinônimo disso, o Mercosul inteiro sabe, são fios lisos. Mas a missão dela é quebrar essa ideia, corte após corte, com técnicas especializadas em cachos. A seguir, trechos de uma conversa sobre racismo, simbologia das curvas, ni una a menos e uma revolução carregada de ternura.

Como começou sua história com os cachos? Sempre gostei dos meus próprios mas, quando era adolescente, nem creme de pentear existia. Aprendi a cuidar deste tipo de cabelo, sobre o qual ainda se sabe muito pouco. Estudei visagismo, publicidade, fotografia e me interessei pela beleza, mas não gostava dos padrões impostos2, essa coisa de ter de ser alta e loira, ou do ‘corte certo para o seu rosto’. O corte certo pode não ser o que te identifica, e aí? Na Argentina, trabalhei com a imagem de bandas e músicos e, aqui, tento ajudar as pessoas a se encontrarem e transmitirem o que querem pelo visual.

Liberdade de expressão pelo cabelo? Sim. Levei muito a sério como o cabelo pode libertar as pessoas. A ideia é que acompanhe nossas mudanças internas. Infelizmente, por causa da violência aqui e na Argentina, a mulher está cada vez mais forte 3. Está claríssimo que não somos o sexo frágil. Eu sou uma pessoa que mal tenho tempo, sou separada e tenho dois filhos pequenos. E vejo como a gente vai mostrando para si mesma que pode dar conta de tudo na vida. O cabelo representa isso. Você se amar para se mostrar para o mundo. Nós temos que nos sentir livres e “poderosas”, como dizem as brasileiras.

O que mais nós brasileiras dizemos? “A cara da riqueza!”. Chegando aqui, me surpreendi ao ver que tudo o que tinha a ver com riqueza e ser poderosa. Pensei: gente, e se quero ser apenas livre, poder ir à praia e pagar minhas contas? É louco o peso das coisas do cotidiano. Pois ainda existe a ideia de que quando você está com o cabelo liso, está fina, elegante, poderosa. E, se está com o cabelo crespo, parece suja, desleixada e pobre. Historicamente, o sinônimo da riqueza era o cabelo liso, esse é o contraste da mulher que mandava com a escrava.

Tem a ver com nosso passado. Sim, tive que pegar os livros e estudar história do Brasil para ver o porquê de algumas coisas. Na Argentina a gente não tem esse passado de escravos. Acabei descobrindo como o cabelo crespo tem um peso enorme. Vi que os brancos escravocratas, quando escolhiam uma mulher negra como mulher, a deixavam toda montada e de cabelo liso, como branca. Isso é a ‘cara da riqueza’ e é muito pesado. 4

Por isso seu salão completou três anos sem fazer alisamento? Sim, para mim é uma escolha política. Não trabalho com nenhum tipo de alisamento, nem relaxamento nem progressiva. Antes de abrir, ouvi muito: ‘Você está no Brasil, isso não vai dar certo’. Mas veja, 97% dos salões já fazem isso. Posso ser parte dos 3% que vão atrair as mulheres como eu. Além disso, a beleza imposta pelo sistema cobra um preço muito alto para a saúde. Eu não entro para fazer as unhas onde estão fazendo uma progressiva. É tóxico e faz mal para o pulmão. Na Argentina, a piada interna entre os profissionais era: vou guardar 10% para a quimioterapia. Pois é, humor pesado de salão. Mas real. Você ganha dinheiro e fica lisa, mas e aí?

Aqui ainda entra gente pedindo por lisos? Sim. O outro dia estava tentando fazer minha cliente assumir seus cachos e ela me diz que a chefe deixou claro que ninguém com cabelo crespo vai virar gerente no banco onde ela trabalha. Porque é cabelo de desleixada. Isso numa reunião com 20 mulheres para ver quem ia assumir o tal cargo. Você acha? A progressiva infelizmente tem essa história pesada. Vejo que ainda há muito preconceito, machismo e uma população sofrendo, por isso tenho sido cuidadosa. Não é que posso sair jogando toda a informação para a cliente de uma vez só. Fazemos o diagnóstico dos fios e às vezes escovamos a franja, ou a parte da frente, mas tentando que 90% do cabelo permaneça natural. É um trabalho de formiguinha.

Dá certo? Sim! Atendi uma mulher de uns 45 anos com cabelo dividido ao meio, preso num rabo de cavalo baixinho, reprimido, que era a imagem que ela passava. Aí trabalhamos as camadas e a textura, expliquei como cuidar dos cachos em casa e, dois dias depois, recebo uma mensagem dela. Estava feliz porque o marido a havia abraçado pelas costas, depois de anos, dizendo como estava linda e como ele se lembrava da época em que tinham casado. Chorei. Nessas horas você vê como o cabelo mexe com a energia das pessoas.

Mas e a praticidade? O liso ainda é mais fácil de cuidar? É um pouco mito. Que a pessoa tenha cabelo liso não significa que não vai ter frizz e outras necessidades. Esses maravilhosos de novela estão escovados. Mesmo quem alisa precisa secar em casa, pois o produto é termoativo e depende de calor. Já com o cabelo cacheado, o melhor que se pode fazer é sair com ele molhado. Eu saio assim, pegando vento pela janela do carro. Fica incrível porque tenho um bom corte, um bom leave-in e um bom produto para finalizar.

Que mais não sabemos sobre cachos? Todo mundo quer o cacheado tipo babyliss, né? Mas a gente consegue um pouco disso com ele natural. Mostro para as minhas clientes fazer rolinhos com o dedo com o cabelo ainda molhado. Amassa e deixa secar ao natural, para que memorize o cacho. Depois de seco, abrir o cacho e dar volume é fácil. O problema é se já secou com frizz e sem definição. Isso também permite que você mude o tamanho do cacho. Por exemplo, a cliente tem o cacho pequeno e quer mais encaracolado, é só fazer o rolo maior com o dedo. Depois de seco você finaliza, abre, para que não fique aquele cacho infantil. 5

E o visagismo, o que diz? Que têm a ver com as curvas da mulher. Numa novela, repare que a personagem má normalmente tem cabelo escuro e liso. Já a sexy tem volume nos fios, ondas. Isso representa as curvas da mulher. O cabelo cacheado é muito mais sexy e forte. Quando começamos a trabalhar isso, as clientes ficam curiosas.

Depois de assumir o cabelo natural, do que a brasileira não abre mão? Aqui, ensino a cuidar para que fique com aparência de que está cuidado. Tive que adaptar as técnicas para o Brasil porque, na Argentina, nunca precisei estar com o cabelo “parecendo arrumado” para ser valorizada. O argentino anda muitas vezes de mullet, de coque, todo bagunçado e é gerente ou dono de empresa. É bem comum você andar pelo centro de Buenos Aires e ver gente cabeluda e com um terno de R$ 20 mil. Aqui, não.

A revolução dos cachos é também a dos penteados afro, não acha? Sim. Uma das moças começou a trabalhar aqui com progressiva e hoje está com um afro lindo, diz que é muito mais olhada na rua do que antes. É uma atitude. Ela é mãe solteira, trabalhadora, é como se dissesse: ‘Sustento a minha família; Não venha você me dizer como tenho de arrumar meu cabelo’. Já aconteceu com muita gente aqui. As pessoas vão se envolvendo pois esse pensamento é contagiante.

 

Atualização: a primeira versão do texto trazia o endereço do Berlin Hair, salão de que Milly era sócia quando conversamos. A nota foi alterada para incluir o Espaço Secreto, onde ela atende hoje.

O CALMA também está no Facebook.