De onde vem o Botox?

A farmacêutica Allergan transformou um dos venenos mais letais do mundo num império multibilionário e a história é fascinante

O Botox vem de uma bactéria que às vezes dá em comida enlatada e que é tão perigosa, mas tão perigosa, que faz os músculos em volta do pulmão paralisarem. A pessoa não consegue mais respirar e, muitas vezes, morre.  A substância que provoca isso se chama toxina botulínica, que nada mais é que o nome científico do Botox. Vem do  inglês: botulinum toxin, ou Bo-tox.

Como a farmacêutica Allergan transformou um veneno tão perigoso num império multibilionário é uma história fascinante.

Era uma vez um oftalmologista que, nos anos 1960, queria achar uma cura para o estrabismo. Ele tinha um amigo que trabalhava na área de pesquisas de armar biológicas dos Estados Unidos e pediu que lhe conseguisse umas amostras de toxina botulínica. O amigo obteve a substância, o médico a testou em macacos e deu certo, saiu dali um tratamento bem eficaz para o estrabismo.

MATA O MENSAGEIRO

Na década seguinte, o remédio foi aprovado e passou a ser usado em humanos para tratar esse e outros problemas musculares. O que a substância faz é bloquear o neurotransmissor que avisa o músculo que é pra ele mexer. O cérebro manda a mensagem, mas o músculo que está com a toxina não recebe e, por isso, não mexe. Para quem é estrábico ou, por exemplo, pra crianças que têm espasmos musculares, isso é muito bem-vindo.

Mais uns anos se passaram e, por acidente, como ocorre com tantas drogas, um novo uso foi descoberto para a  toxina botulínica. Foi no Canadá, num consultório tocado em família por um médico dermatologista casado com uma médica oftalmologista. Ela começou um tratamento experimental com toxina botulínica numa paciente que não conseguia parar te piscar – tinha um problema no músculo do olho. Numa dessas sessões, a paciente fala algo do tipo: “Doutora, injete um pouco mais para cá que a minha sobrancelha fica ótima quando você o faz”.

EUREKA!

Foi um momento eureka. A médica sugeriu um teste ao marido para conferir o poder cosmético da droga. A primeira cobaia foi a recepcionista da clínica, que teve o sulco entre as sobrancelhas amenizado. Em seguida, para ganhar credibilidade, a médica começou a aplicar injeções da toxina diluída no próprio rosto. Resultado: a agenda da clínica lotou com pacientes que queriam atenuar suas rugas e a médica não franze a testa desde 1987 – ela mesma conta a história num TEDTalk disponível em inglês.

Nisso, na virada dos anos 90, a Allergan fez o que as farmacêuticas fazem, que é comprar remédios que ainda engatinham no mercado mas parecem promissores em termos de lucros. Eles batizaram a droga em 1992, postulam autorização para uso cosmético na FDA, a Anvisa americana e o resto é história.

O Botox virou uma marca tão grande e tão rica que catapultou a própria Allergan, a ponto de a Allergan ter sido vendida, em 2015, por 66 bilhões de dólares. O produto já teve alguns concorrentes que não deram muito certo, mas nenhum genérico. O motivo é que, como a Coca-Cola, o Botox não tem uma fórmula patentada. Ele tem é uma receita secreta.

A farmacêutica controla a fermentação anaeróbica da bactéria que produz a toxina, depois dilui e purifica, mas não diz como faz isso, que tempos usa em laboratório, nada. Para saber dos detalhes, você precisa se chamar Mitchell Brin e ser o cientista chefe da Allergan. Por exemplo, só para visitar a planta da empresa, a pessoa precisa assinar um termo aceitando o risco de desenvolver, alguns dias depois, visão dupla, problemas de fala e, quem sabe, paralisia no sistema respiratório. É aquele clássico “Não vai acontecer, mas, assina aqui, por favor”.

GUERRA BIOLÓGICA

A receita secreta protege os lucros, claro, mas também protege a população do mundo inteiro, diz a empresa. Ninguém sabe, por exemplo, onde fica a massaroca de bactérias que eles usam como matéria-prima. E nem quando são feitos os envios dessa matéria-prima para a fábrica na Irlanda, de onde sai o Botox do mundo inteiro. Tem uma matéria legal da jornalista Cynthia Koons para a revista Bloomberg Newsweek que fala desses traslados secretos para quem quiser ler em inglês.

Por causa dos riscos de guerra biológica, a empresa precisa avisar o governo americano do paradeiro de qualquer quantidade da toxina, por mais infinitamente pequena que seja. Os EUA já estudaram a toxina botulínica para desenvolver armas biológicas, é natural que esperem ser atacados da mesma forma.

É por isso que a fonte do veneno não tem o endereço divulgado. Ela fica em algum lugar dos EUA, provavelmente na Califórnia, mas a sua exata localização geográfica ninguém além dos chefões da empresa e do governo americano sabe.

Resumindo, a pergunta do título, “De onde vem o Botox?”, se você levá-la ao pé da letra, não tem resposta.

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