The Love Witch — Bruxa e bonita

Samantha Robinson é Elaine em The Love Witch, da diretora Anna Biller [foto: divulgação]
Um filme que inverteu o ditado e me fez pensar se a beleza está mesmo nos olhos de quem vê ou de quem mostra

The Love Witch estreou nos Estados Unidos no final de 2016. Por aqui, ainda não tem previsão de chegar às salas, mas vale a torcida. O longa da diretora Anna Biller, meio comédia, meio horror, conta a história de uma jovem bruxa que usa poções mágicas para conquistar os homens. Tem uma estética retrô deliciosa, mas é bem mais do que um tributo ao Technicolor.

Elaine (Samantha Robinson) tem um projeto de vida antiquado — conseguir um homem para amar — e técnicas igualmente velhas para alcançá-lo — look sexy carregado; feitiços. Ainda assim, o filme me fez rir e pensar em situações atuais, como na cena em que o homem descreve sua fantasia de gângster sedutor e ela, maravilhada (sic), o incentiva a continuar. “Parece fascinante”, diz. Ou “Não, é claro que não é uma besteira!”. Depois, explica: de tão frágeis, os homens não suportam contrariedades. Precisam de compreensão e liberdade total. (Não à toa, muitos sucumbem a suas caldeiradas). 

Piadas de gênero à parte, essa bruxa me trouxe um curto-circuito cerebral entre beleza, olhar e atração. Primeiro, ei-la na contramão do empoderamento feminino que preza independência, amor-próprio e dane-se a opinião alheia, conceitos tão e felizmente na moda que a publicidade e toda a roda de tendências mercadologicamente exploráveis já percebeu. Ao contrário do GRL PWR, o cérebro desta heroína parece “lavado pelo patriarcado”, como sua amiga avisa.

Ocorre que para as bruxas o poder mora no corpo da mulher. E no efeito que ele causa aos outros. É uma ferramenta. Elaine se maquia para os outros. Se veste para os outros e faz tudo para alcançar um ideal coletivo de beleza: usa peruca, vestidos vitorianos, lingerie com cinta-liga, cílios postiços. É o oposto do effortless look. De tão evidente, seu esforço em agradar desconcerta.

Seus olhos também. O filme os explora desde o primeiro quadro, do espelho retrovisor para a estrada e de volta ao espelho. São magnéticos e reforçados em muitas camadas: com delineador gatinho e sombra azul brilhante (quase uma gafe de maquiagem), mas também com ação. Quando Elaine faz um desconhecido atravessar a praça hipnotizado ao seu encontro, o faz com o olhar. Gosto da peça que a diretora prega aqui, chegando perto de nos convencer de outra bruxaria, mas nos obrigando, afinal, a admitir: esse é apenas o poder que olhares intencionais e ininterruptos têm.

Ainda sobre ver e ser visto, os botes de Elaine incluem todos um striptease clássico, com lingerie fetichista e rebolado. Para somar, a escola de bruxas adverte, a dança é uma arma poderosa de que as mulheres não devem prescindir jamais. De repente se torna confuso identificar a ponta frágil desse jogo que mais parece circular. Fica a ideia, tão esquecida entre flertes intelectualizados e tropeços bêbados no escuro, de que a beleza exige 1) luz e 2) uma distância mínima entre dois corpos para acontecer. Alguém tem de ser visto e alguém tem de ver. Quem é passivo nessa situação já é outra conversa.

Foi assim que uma sessão de cinema bateu à porta de um tabu, e para mim isso define algo que vale a pena ser visto. No site oficial do filme, Anna comenta: “Enquanto estamos acostumados a ver a bruxa sexy ou femme fatale por fora, eu quis explorá-la pelo seu interior”. É uma boa lembrança da matéria humana, que não vem sem conflitos. No meio deles, Elaine está indo atrás do que ela quer, e não há feminismo que se oponha a isso.

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