Aquele buraco de ozônio se mexe

[foto: Peter Harrison]
Em pesquisa recém-lançada, o meteorólogo Lucas Vaz Peres abre uma nova frente para entender o céu do Sul do mundo

Um estudo que está saindo do forno na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) descobriu que os níveis de ozônio sobre o Sul do Brasil variam de um jeito que desconhecíamos. Em dias de primavera, a proteção do gás pode cair consideravelmente, sem motivo aparente. Logo depois, volta ao normal. Eventos assim, curtos e pontuais, expõem a pele de milhares de pessoas a radiação ultravioleta extra, mas passavam despercebidos. Até agora. Após analisar 24 anos de dados, o meteorólogo Lucas Vaz Peres conseguiu comprovar o que eles têm em comum: uma frente fria peculiar 1.

O fenômeno costuma derrubar a temperatura ao trazer ares do Pólo Sul para o continente. Até aí, nada de novo, é o que ocorre também no hemisfério norte. Mas a geleira meridional é sede do buraco na camada de ozônio e isso muda as coisas. Lucas explica que, nas bordas do “buraco de ozônio”, o ar fica ali, girando, girando em torno do continente Antártico, e às vezes se desprende rumo ao norte com ventos. É assim que chega, capenga de ozônio e de seu poder bloqueador UV, ao sul do Brasil, da África e da Austrália.

Seu trabalho 2 identificou as vezes em que isso ocorreu na faixa de Santa Maria (RS), onde fica o Observatório Espacial do Sul. O local, na vizinha São Martinho da Serra, é ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e funciona em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Cruzando os dados com os de satélites internacionais, Lucas identificou 58 “eventos”. Ou seja: 58 vezes em que o ozônio caiu de forma atípica e expôs a população sulista.

Cruzando os dados de ozônio 3 com os de satélites internacionais, Lucas identificou 58 “eventos” entre 2005 e 2014. Ou seja: 58 vezes em que o ozônio caiu de forma atípica e expôs a população sulista a doses fortes de radiação UV nos períodos de primavera entre agosto e novembro de cada ano da análise.

O curioso é que não eram dias tórridos. “Geralmente, as ocorrências se deram após a passagem de frentes frias, bem quando sai aquele solzinho gostoso e a gente fica feliz”, diz ele. “Aí, a população teve sua proteção reduzida e ficou exposta aos raios UV como se fosse um dia de verão.”

Por que isso é importante? Porque indica que podemos usar esse conhecimento na meteorologia. Reduções de 1% no conteúdo de ozônio causam aumento de até 2% na radiação UV incidente sobre a superfície terrestre. Os eventos estudados por Lucas causam reduções médias de ozônio próximas de 8% e, consequente, provocam aumento de mais de 15 % nos raios UV, o que é uma diferença pequena. “No futuro próximo, a população pode receber um alerta dizendo que o dia terá maior radiação UV”.

Em 14 de outubro de 2012 o estudo registrou o ar mais falhado de todos: queda de 13,5% no ozônio, aumento de radiação ultravioleta de 26%. Hoje as previsões de índice UV são feitas sem esse conhecimento — é claro, ele acabou de ser gerado. Mas a ideia de Lucas é que, passada a ciranda de publicações em revistas científicas necessária para validação dos métodos de análise, seus achados possam ser colocados em prática. 4

Enquanto esse dia não chega, Lucas tira nossas dúvidas sobre o tema. A saber:

ABRE E FECHA

O buraco não fica aberto o tempo inteiro. Quando a noite de seis meses termina e o Sol volta a brilhar na Antártida, o cloro, proveniente dos CFCs, reage com ozônio em temperaturas extremamente baixas e o destrói. “De agosto a novembro, a região polar é dominada por uma redução de mais de dois terços”, diz o estudioso. Mas, no verão, a falha se fecha de novo.

A CICATRIZ

No ano passado, a comunidade científica comemorou a pesquisa da química Susan Solomon, que mostrou que o buraco diminuiu. Lucas, que já esteve ao lado da famosa pesquisadora em um simpósio no ano passado, atesta: “Se ela falou, está mais do que falado. Ela é uma referência”. Mas o avanço não é sinônimo de problema resolvido. Afinal, o CFC liberado nas últimas décadas segue agindo e está apenas retrocendendo. “Até 2050, vamos sentir os efeitos desse buraco”.

CFC DO FUTURO

Nos anos 1950, os ares condicionados e geladeiras lançaram essa novidade à atmosfera, o CFC. Nos anos 80, o resultado foi a destruição massiva da camada de ozônio, um gás que permite a nossa vida na Terra. O protocolo de Montréal, de 1987, combinou que ninguém mais usaria o produto. No lugar, a indústria adotou outro, cem vezes menos nocivo — mas ainda assim, levemente nocivo. “É difícil prever quando exatamente vamos recuperar a camada de ozônio. O novo gás destrói menos mas, ao mesmo tempo, há cada vez mais aparelhos de ar condicionado no mundo.”, diz Lucas.

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[Foto: Western Sky, de Peter Harrison © CC]

 

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